Esse post não tem nada de análise do mercado ou constatações, como os anteriores.

É um conto.

Por isso vou direto pra historinha:

Estava naquelas épocas de trabalhar pra caceta, até tarde final de semana, etc. Nada além do comum, que infelizmente, a prática da nossa profissão trouxe.

Combinei com meus pais de ir no final de semana com a minha família pro sítio onde eles vivem.

(Sim, não nasci conectado, muito pelo contrário, meu pai nasceu no sítio, e eu vivi no sítio a minha infância e adolescendia inteira.)

Então combinei:

- pai, vamos fazer o seguinte: a gente vai no sítio neste final de semana e já pede pro magrão (caseiro) separar uma lenha pra gente fazer fogueira.

(Não, o sítio que estou falando não é o sítio que vc de SP tem na cabeça. Não é em Itu, não tem uma casa gigante, cheia de cômodos, pintadinha de branca, janelas azuis e detalhes em amarelo. É um sítio de verdade, sem frescura, sem lareira, e eu adoro fazer fogueira.)

Chegou próximo do final de semana e eu tive que ligar pros meus pais avisando que não poderia ir, pois tinha que trabalhar.

No final de semana seguinte a mesma coisa.

No terceiro final de semana, finalmente eu consegui.

Sentado do lado do meu pai exercendo o mais belo momento de ócio.

(Em  SP o ócio é um pecado, mas no interior é uma virtude.)

Meu pai me olhou e perguntou:

- mas Pê, o que vocês fazem lá no seu trabalho que tem tanta urgência assim?

(mais um parenteses aqui, sei que esse texto já está parecendo um livro do Paulo Coelho, mas é necessário: meu pai é médico, com quase 40 anos de profissão)

Respondi com toda a certeza que só um publicitário pode ter:

- pai, é que a gente estava com coisa pra entregar segunda-feira, e não deu pra fazer tudo durante a semana, tivemos que trabalhar.

(Convincente vai?)

Ele parou, me olhou e perguntou como se tivesse 7 anos:

- mas por quê vocês deixam as coisas pra entregar na segunda-feira? Não dá pra deixar pra depois?

A essa altura eu já estava pensando: ô velhinho ingênuo, não entende nada de propaganda mesmo!! Vou usar um argumento matador e pronto.

- pai, é que já tem reunião marcada. Não dá pra mudar.

E veio ele com mais uma pergunta de 7 anos:

- mas Pê, quem marca essas reuniões não pode marcar outro dia?

Se ele não fosse meu pai, nessa altura do campeonato eu já teria mando se foder e falado: sei lá, é assim e pronto!

- é que eles já compram o espaço na TV, na internet, sabe pai, e tem que entregar as coisas pra poder veicular.

Agora sim eu tinha matado os argumentos dele!!!! Pronto! Tem mídia comprada, fala alguma coisa agora espertão, fala!!!!!!

- mas Pê, o que que vocês fazem vai aparecer na Internet e na TV de tão importante assim?

Afe, sujeito insistente!!!!

- ah pai, várias coisas! 

(não sabia dizer nenhuma na verdade, e não sabia justificar, então falei isso.)

- Ah tá!

Ele me falou com voz de quem aceitou mas não entendeu.

- Legal! Que bom que vocês estão com bastante trabalho lá.

...

E voltamos a olhar para a fogueira sem falar nada.

Essa pequena fábula me fez pensar qual é o nosso sentido de urgência?

O que fazemos de tão importante assim que justifique pessoas estressadas? Ulceras?15 horas de trabalho diário?Finais de semanas perdidos?

Na cabeca dele, urgência era o que acontecia quando ele estava de plantão e alguém se acidentava.

Ou um quadro tão grave que não podria esperar até segunda-feira.

Ou ainda alguém que levou um tiro e está entre a vida e a morte.

Isso é urgência pra ele, ele entende a urgência como: meu deus se eu não fizer isso agora, alguém vai morrer. 

E você? Como entende a urgência?

Será que não podemos calibrar um pouquinho nosso sentido de urgência pra juntos termos uma vida com menos "falsas urgências"?

Pra termos tempo de realmente tratar as urgências como devem ser tratadas, um caso de vida ou morte?

E se fosse um caso de vida ou morte, quantos casos assim enfrentaríamos em 40 anos de profissão?

Calibre um pouquinho o seu sentido de urgência, a partir desse dia eu calibrei o meu.

 

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